sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Flor de Maracujá






A maravilhosa noite derramava inspirações divinas.

Ao longe, constelações faiscantes semelhavam-se a pérolas caprichosamente dispostas numa colcha de veludo imensamente azul. 

A paisagem lunar oferecia detalhes encantadores. Fulgurava o Cruzeiro do Sul como símbolo sublime, desenhado ao fundo azul-escuro do firmamento.

 A Via-láctea dava a impressão de prodigioso ninho de mundos, convidando todos a meditar nos segredos excelsos da natureza divina. 


E as suaves virações noturnas passavam apressadas, sussurrando grandiosos pensamentos.
 

Porém, não fora o brilho das estrelas nem o sorriso do luar que me trouxeram aqui nesta noite.

Confesso a vocês que tenho andado com o coração angustiado, com a alma oprimida. Só quem já passou por uma separação assim, só quem já viveu a dor de uma saudade, é capaz de entender o que estou querendo dizer.

Eu trago nas sandálias da lembrança a poeira dolorida de um amor não correspondido.
Ainda me lembro daquele dia que, enamorado em que me via, deixei meu coração falar ao teu:



“Alma de minha alma, sublime esperança de minha vida, inefável alento de meu coração. De espírito pacificado me encontro ante o regozijo de estar ao teu lado”
 

Alguns pensam que eu esteja louco, outros dizem que amor não se discute, mas são poucos os que realmente acreditam que eu esteja apaixonado por uma flor de maracujá.

Ah, a flor de maracujá, eu bem me lembro, abriu-se em bela tarde de setembro, numa ramada nova, luzidia, que lá no fundo do terreiro seus longos braços decididos estendia, entre os espinhos do meu velho limoeiro.


Certo dia, o maior desses espinhos assim falou, num gesto ponteagudo: 






O flor, não vês tantos insetos maus, daninhos que te roubam o mel, pólem e tudo, e ainda por cima ferem teus tecidos e matizes?


Como é que nada dizes quando te assalta tanto bicho feio?


Como ficas aí, sem um queixume, deixando o vento carregar o teu perfume para ir perfumar terreno alheio?


Enquanto é tempo, fecha as pétalas lustrosas, guarda só para ti tanta beleza e declara guerra aos beija-flores e às abelhas horrorosas que comem sem pagar à tua mesa.



Isso é uma afronta!


Tu vives sendo depredada e não te cansas?
Se quiseres, eu te empresto a minha ponta: longos espinhos para usares como lanças!

A flor, porém, sorri, balançando a corola, à cadência de um vento e numa onda de perfume que se evola, assim diz ao espinho agressivo e violento:



Tu não conheces o destino de uma flor, não nasci para o ódio, eu nasci para o amor.


Guerra, queixa, agressão... que sugestão é esta?
Ser flor é ter as pétalas em festa, espalhando o convite dos perfumes às abelhas de dia e à noite aos vagalumes. Enfim, a todos os bichinhos da floresta. Ser flor é ter um coração cheio de mel, como pote dourado aberto a quem vier, até mesmo a ti, pobre espinho insensato. É mesa posta o coração das flores: pólem, mel, perfume e cores, banquete de abelhinhas esfaimadas!


Não me fale de lanças nem de espadas, acaso já viste alguma flor em um campo de batalha?


Toda flor é um pequeno castelo de fadas, sem fosso nem muralhas, sem torres nem ameias, franqueado sempre à fome e à indigência alheias.


Ser véspera do fruto e véspera da vida, eis toda a sua essência colorida: perfume e cor em gesto de esperança, e presente que a mão por mais pequena alcança.

Assim falou... mas, afinal, um dia, suas pétalas caíram e... ei-la despojada!

O espinho comentou então com ironia:
 
Eis a que fim chegou esta pobre obstinada, deu tudo o que possuía, no fim morreu sem nada!

Alguns meses mais tarde, fui rever, muito tempo depois da primavera, o meu maracujá, no fundo do terreiro, que ainda pelejava contra o limoeiro. Com que imenso prazer eu descobri, então, que lá na mesma rama onde a flor estivera, bem ao lado do mesmo espinho bruto, havia agora um fruto, em forma de coração.


"Anjo da Alegria, desce à terra e derrama beleza e prazer sobre todos os filhos da Mãe Terrena e do Pai Celestial. E saireis para os campos de flores depois da chuva e rendereis graças a vossa Mãe Terrena pelo suave aroma das florescências".

Video:   http://www.youtube.com/watch?v=sZi8PrgY6wU
Tiago Bueno Camargo
tbcsol@gmail.com

O Livro da Natureza é um manuscrito sagrado. Olha as flores e louva quem as fez. Não passe desatento. Elas de certa forma nos falam sobre algo que buscamos. Falam da poesia sempre presente. Ajudam a nos recordar da matriz da vida. Todos viemos de uma fonte de alegria, beleza e encantamento, e carregamos parte dela dentro de nós mesmos, por mais que, às vezes, estejamos nos sentindo perdidos e desalentados.

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