segunda-feira, 25 de abril de 2011

Naicha, surfista e filósofa selvagem


           

     Chegamos junto à piscina e a discussão já havia tomado vulto. Muitas pessoas se reuniram para ouvir o que ocorria. Foi então que falei:

              - O que a Naicha está fazendo? Promovendo um debate em meio a uma festa? Não haveria outro momento e lugar mais apropriado para isto?
         
                 - A Naicha adora agir fora dos padrões - disse Cedaior. Ela faz isso justamente porque sabe que o universo está esperando pela contribuição dela. E isto acontece quando agimos com base em nossa intuição. Porém, para que isto ocorra é necessário ter um elevado nível de confiança, já que nossas escolhas passam a ser baseadas somente no que sentimos que é correto, e não naquilo que as regras de outras pessoas dizem que é correto.
             
                 - E se as pessoas não gostarem? E se ficarem pensando mal da gente ou nos caluniando?
              
                  - Precisamos liberar a necessidade de ter controle sobre os pensamentos das outras pessoas - continuou Cedaior. Isso é um hábito que vem de usar excessivamente a mente. O contrário é aprender a escutar o seu coração, a confiar nas suas mensagens e agir de acordo com elas. Quanto mais fizermos isso, mais entenderemos que é somente entregando nossas preocupações e dúvidas à sabedoria de nosso próprio coração, que vamos encontrar a paz interior. Agora, se as pessoas falarem bem ou mal a nosso respeito, por favor pode acreditar que é verdadeiro - riu ele. É preciso deixar que os outros tenham a percepção deles. Não importa o quão limitada ela seja aos nossos olhos. Não precisamos tentar corrigir o ponto de vista do outro. Não precisamos fazer isso, não é responsabilidade nossa. Quando nos liberamos dessa "obrigação", o espaço à nossa volta amplia-se consideravelmente, já que paramos de ficar correndo, preocupados, para preservar nossa auto-imagem. Nossa auto-estima não pode depender do que a sociedade, a família ou a tradição, pensa a nosso respeito. Chegou o momento de deixar de tentar viver de acordo com os padrões de certo ou errado do mundo exterior - finalizou ele.
               
                  Fiquei mudo, sem mais nenhuma pergunta. Enquanto isso, o debate já estava quente. O cientista falava, visivelmente consternado:
                      
                       - Nós não somos responsáveis se as nossas descobertas são utilizadas pela indústria química ou militar. Não temos culpa alguma em relação a isto.
                
                  - É claro que não - rebateu a Naicha. A responsabilidade não tem sentido senão com relação a um sujeito que se percebe, reflete sobre si mesmo, discute sobre ele mesmo, contesta sua própria ação. Porém, o conceito de sujeito foi retirado dos princípios que regem o conhecimento científico. Por isso, há sempre cegueira e incapacidade de ver a conexão onde existe conexão. Há a incapacidade de olhar-se a si próprio.
                 
                    - Mas o que você quer, hein menina? - questionou o cientista, nitidamente irritado. Para que a nossa ciência tivesse fecundidade foi preciso separá-la da reflexão filosófica e do julgamento de valor moral, visto que a Igreja inibia e condenava os primeiros cientistas. Ela dizia que a ciência contradizia a Bíblia. Por isso, o ímpeto da nossa ciência moderna foi esclarecer, inovar e destronar a falsa autoridade dos dogmas rígidos e sufocantes da Igreja.
                  
                   Percebi que o debate estava pegando fogo. Naicha esforçava-se para responder à altura. Ela pareceu olhar para o Cedaior por um segundo, como que a buscar forças. Ele se mantinha calmo e confiante e isso deu a ela mais coragem. A surfista então voltou do silêncio imediatamente, dizendo:
         
           - A realidade de hoje não é diferente. Os métodos científicos também são limitadores, de uma outra forma. Eles estão emperrados em um tipo mesquinho de pensamento racional, analítico e lógico, que não se abre o suficiente para permitir a participação da imaginação e da intuição. Além do mais, se na origem da ciência moderna foi necessário que se operasse uma ruptura decisiva entre a reflexividade filosófica e a objetividade científica, hoje, a ciência tornou-se poderosa e maciça instituição no centro da sociedade, subvencionada, alimentada, controlada pelos poderes econômicos e estatais, que têm interesse em deixar autonomia aos cientistas para que eles façam descobertas que poderão ser utilizadas nos objetivos militares ou industriais. Por isso, chegou a hora de refletirmos sobre essa enormidade de poderes que vieram da ciência e diante dos quais o cientista é impotente.
        
            As pessoas à volta aplaudiram a resposta dada pela Naicha. O cientista ficou enfurecido. Não esperou muito e retornou falando em voz ainda mais alta:
        
            - Mas é graças à ciência que nossa civilização se modernizou. Sem ela não haveria progresso, nem conforto tecnológico.
         
              Naicha agora respirou fundo, procurando manter-se centrada. Ela precisaria dar uma resposta muito bem articulada, já que praticamente a festa inteira havia parado para acompanhar o debate. Olhou, então, lentamente para a multidão, como quem sentia a respiração da própria atmosfera a sua volta e emendou uma resposta dizendo:
         
             - O contrário de uma verdade profunda é outra verdade profunda. Não há um sinal de civilização que não seja também um sinal de barbárie e selvageria; o progresso do conhecimento científico faz progredir também a cegueira e o mistério. Chegou a hora de colocar em evidência a ambivalência profunda do que foi por muito tempo considerado apenas benéfico: o progresso, a ciência, a técnica e a indústria. 
             
              Um minuto de silêncio pairou no ar, enquanto todos olhavam, agora, para o cientista, como que prenunciando a sua derrota. Ele, então, saiu do debate das idéias e apelou para o confronto pessoal:
                
            - Eu sou cientista e você é uma enciclopedista com argumentos filosóficos. Cientistas não discutem com enciclopedistas.
       
             Algumas pessoas que estavam ali presentes caíram na gargalhada, num visível deboche à Naicha. Eu, indignado, olhei para o Cedaior e disse:
       
            - Temos que tomar alguma providência. Ele não pode falar desse jeito com ela.
       
            - Mantenha-se conectado aos sentimentos dele e não aos julgamentos que ele emitir - falou Cedaior. A Naicha está se expressando a partir do coração. E essa energia sempre leva à confusão e ao caos, no ponto de vista daqueles que adoram leis e estruturas e que olham de baixo para uma autoridade firme e resoluta, que lhes diga a verdade. Por isso, é normal que ele esteja sentindo muito medo. Ser julgador lhe proporciona um sentimento de segurança e é apenas isto que ele procura. É importante que a Naicha perceba isto também e não tente se defender.
        
           Não foi isto o que aconteceu, porém. Enquanto todos riam, vimos os olhos da Naicha ficarem vermelhos da cor do sangue. Cedaior percebeu isso e falou:
      
            - Ela perdeu a comunicação emocional com ele. A situação pode tomar outra proporção.
      
            - Como você sabe disso? - indaguei.
      
            - Dá para perceber que ela ficou emocionalmente abalada com o que ele disse. Isso indica que ela ainda possui uma desconsideração por si mesma, que faz com que dê crédito às opiniões negativas dos outros. Só que esta falta de apreço por ela mesma não se resolverá entrando em conflito com ele. 
       
              Antes, porém, que o Cedaior pudesse terminar, vimos Naicha aumentar sua voz e dizer, veementemente:
       
           - Não posso nem ninguém pode ser enciclopédica. Sinto-me antes uma “enciclopedante”, não no sentido pedante do termo, mas no sentido da auto-educação, ou seja, de uma aprendizagem que coloca o saber em ciclos, tentando articular o que está disjunto e deveria estar junto. Foi-se o tempo em que o conhecimento científico e especializado era considerado o reflexo do real. Por isso, você e todos os "experts da ciência" precisarão viajar através dos territórios desconhecidos do saber, caso não queiram continuar no grande cemitério das idéias mortas, onde a enorme massa do conhecimento quantificável e tecnicamente utilizável não passa de veneno, já que privada da força libertadora da reflexão, que somente a filosofia pode trazer. Esforcei-me por sair dali e sei, hoje em dia, o quanto isto é perigoso, pois em todo o lugar vejo que há sentinelas de plantão, sempre dispostas a atirar em mim.
      
             O cientista esbravejou "contra os céus", enfurecido, enquanto algumas pessoas ali presentes começaram a aplaudir em coro a resposta dada pela Naicha. Cedaior, então, voltou a falar:
     
             - Eu vou intervir.
      
             Ele se aproximou dela e disse:
     
            - Ataraxia.
    
              Naicha não disse uma palavra sequer. Olhou a sua volta, abaixou a cabeça e saiu, acompanhada de perto por ele. Entretanto, antes que pudesse sair totalmente do local, passou ao meu lado e sussurrou:
      
             - Ricardo, este é um tempo de mudanças. É o momento de ser corajoso e assumir riscos, de ouvir a voz do seu coração e agir de acordo com ela em todas as áreas da vida. Por favor, não reprima o impulso de fazer o que seu coração deseja. Você tem que achar o que ama. E isso muitas vezes significa perder-se, não saber para onde ir, chorar, ir contra as regras da lógica e do planejamento. O caminho do coração é muito intuitivo. Onde ele ordenar é lá que você deve estar.
       
              - E como eu posso fazer isso? - indaguei.
        
             - Lembre-se de quando você era criança. Você ousava ter grandes sonhos. Neste momento precisamos ter grandes sonhos na Terra. Os tempos estão mudando e mais pessoas estão se conscientizando de que alguma coisa precisa mudar - finalizou ela.

             Eu fiquei sem saber o que dizer. Mas me perguntava o que seria "ataraxia"?  Olhei para os lados e vi que as pessoas aos poucos voltavam para curtir a festa. O cientista, porém, com um ar de deboche, não se fez esperar e quis dar a última palavra dizendo:
   
           - Quem dará melhores respostas que a nossa ciência? Certamente não será ela com sua vã filosofia que se emudece, calada, de maneira arbitrária na esfera das idéias, sem preocupar-se em verificá-las no mundo real - concluiu ele. 
       
        Fiquei pensativo por alguns instantes, enquanto vi se aproximar do cientista um homem, bem vestido, aparentando ter por volta de 50 anos. Sussurrou-lhe algumas palavras ao pé do ouvido e apresentou-lhe uma folha e também uma espécie de convite. Ele ainda com o rosto nitidamente zangado, disse-lhe:
     
        - Confirme a minha presença. Eu irei para este congresso. O que aconteceu aqui hoje não ficará assim.        

        Nesse instante, Cedaior apareceu e me chamou:
     
       - Ricardo, venha conosco.
      
        Virei-me e o segui.

Continua...       



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