domingo, 28 de outubro de 2012

Guia do facilitador de grupos em escuta empática


A função de um facilitador de grupo em escuta empática é ser ele mesmo. Tanto quanto conseguir ser ele mesmo - contraditório, triste, alegre, louco, aberto, distinto, inseguro e capaz de compartilhar - torna-se, de certa forma, um diapasão que encontra ressonância dessas características em todos os participantes do grupo.

O processo inicia-se com o facilitador aceitando-se como se é e permitindo que as demais pessoas sejam quem elas são. Ao iniciar um grupo com esta premissa, os resultados serão valiosos. E isso acontece quando o facilitador sabe o que é ser um ser humano na Terra. Sabe o que é vivenciar emoções profundas de dúvida, medo, tristeza e raiva. Sabe que também está aprendendo a ter compaixão por si e isto significa que o Seu eu mais elevado brilha no momento em que ele acolhe a sua parte mais escura. Por “parte mais escura” quero dizer vergonha, medo, dúvida, depressão... em resumo, a escuridão que existe na sua alma como resultado de experiências dolorosas não resolvidas.

O facilitador, então, pode abrir sua fala trazendo informações simples de como ele se encontra, internamente. Pode iniciar identificando, por exemplo, um sentimento de preocupação: “Neste momento eu me sinto preocupado. Tenho vontade de conduzir o grupo, de controlá-lo. Sinto medo de não ter controle, porque não acredito que eu seja bom o suficiente naquilo que estou fazendo. Me sinto inseguro também.” Ao abrir sua fala deste modo, revelando seus sentimentos e sua vulnerabilidade, ele abre o “campo” para que os demais participantes também se sintam a vontade para ser quem eles são, autênticos.

 Ao aprender a se libertar do próprio julgamento, aceitando-se humano, inacabado e imperfeito, o facilitador abre um espaço de aprendizagem para todos, um espaço terapêutico, um espaço de não-julgamento. Os participantes ingressam num caminho de compromisso com os seus corações, ao sentirem-se seguros para aceitar os sentimentos que mais lhes causam vergonha e medo. São justamente estes sentimentos que estão a bloquear o caminho interior que permite acesso à força e sabedoria inata que cada um trás consigo.

O campo de aprendizagem deste grupo não tem como objetivo a mudança ou transformação destes sentimentos, mas a aceitação e acolhimento dos mesmos. Ao acolher e aceitar estes sentimentos na luz da sua consciência, você está se transformando, está se libertando das suas máscaras, fingimentos e admitindo, sem disfarces, a própria vulnerabilidade. Você está mudando um padrão de luta contra aquilo que mais lhe causa dor e vergonha em sua vida. Certa vez, um participante de um grupo declarou: “Hoje eu pedi autoconfiança e amor próprio, pra que eu conseguisse reconhecer as coisas que são boas e fazer as coisas que são boas pra mim, pensando em mim mesmo, e não olhando ou pensando em outra pessoa, como que querendo a aprovação da outra pessoa e tal. E fui percebendo que o fato de vir aqui e conseguir falar de mim para pessoas estranhas já é um sinal de amor próprio... sabe... eu falei sobre algo que normalmente eu me sentiria um ridículo, ao falar disso pra alguém que eu não conheço. E eu fiz isso sem ficar me questionando, sem ficar pensando se eu estava parecendo um fraco ou não. Depois que eu fiz isso, fiquei pensando: isso é uma coisa positiva. Não fiquei me julgando, enquanto eu tava falando sobre algo que é íntimo, né. Então isso me deixou bastante feliz. Eu acho que quando a gente consegue ouvir outra pessoa com empatia e compaixão, a gente acaba criando essa empatia com a gente.”

No depoimento acima, vemos a pessoa aprendendo como voltar-se para dentro de si com a ousadia de se desapegar de seus próprios julgamentos, de sua crítica. Disse ele: “eu falei sobre algo que normalmente eu me sentiria um ridículo. E eu fiz isso sem ficar me questionando, sem ficar pensando se eu estava parecendo um fraco ou não”. Ao reconhecer sua vulnerabilidade, aceitando expor ela, ele quebrou um muro. Esse muro geralmente é constituído pelos julgamentos que lhe dizem que ele não é bom do jeito que é. Quando ousou falar sobre isso, uma parte de si saiu da escuridão. Ao acolhermos verdadeiramente a nossa própria sombra, conseguimos construir uma ponte entre nós mesmos e as outras pessoas. Isto cria naturalmente compaixão e compreensão em nosso coração. E essa foi sua fala final: “Depois que eu fiz isso, fiquei pensando: isso é uma coisa positiva. Não fiquei me julgando, enquanto eu tava falando sobre algo que é íntimo, né. Então isso me deixou bastante feliz. Eu acho que quando a gente consegue ouvir outra pessoa com empatia e compaixão, a gente acaba criando essa empatia com a gente.”

Ao aceitar-se exatamente do jeito que você é, a transformação ocorre naturalmente, sem que você tenha que se esforçar para isto. O processo é natural, orgânico. A única coisa que lhe é pedido é um compromisso com a compreensão, de modo a acolher aquilo que precisa vir à luz para ser liberado. Quando resistimos e julgamos os nossos sentimentos, eles continuam a bater na porta do nosso coração e podem se tornar em verdadeiros demônios. No entanto, não passam de energias que vêm a você em busca de cura. São como criancinhas que estão abandonadas. Você vai precisar dedicar tempo de intimidade com elas, a fim de resgatar estes sentimentos da ‘Terra de Ninguém’. É assim que iremos chamar essa zona de abandono, solidão, culpa, medo, vergonha e tristeza.

“Mas eu já estou visitando a ‘Terra de Ninguém’. Já estou chorando faz um ano, ao enfrentar minha tristeza, e ela não diminui”, você pode pensar. Se ela ainda está retornando, é provável que exista alguma resistência com relação a ela. Talvez você ache que já deveria estar livre disso, que essa dor não deveria mais estar presente. Essa resistência sutil mantém seus sentimentos à distância e muitas vezes enterrados dentro de você.

É bom o facilitador saber que guiar um grupo com este propósito requer uma habilidade genuína, e não teórica, com a empatia. Significa estar consciente de que as pessoas são, muitas vezes, seres humanos feridos, exatamente como você, e que jogar luz nas sombras pode ser assustador para muita gente. Por isto, é necessário paciência e muita delicadeza. É como comer um mingau pelas beiradas.


Em criação...

Autor: Tiago Bueno
E-mail: tbcsol@gmail.com
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